MINHA CASA, MINHA VIDA!

maio 22, 2009 ·

Rodrigo Marques é um renomado poeta, escritor e professor da UECE e UFC.


Moro de aluguel, seu moço, 400 paus no fim nosso de cada mês, uma casa com varanda dando pro norte e pro sul. É um tipo de dinheiro que sai do bolso, voa pela calçada, vai embora, avoa e nunca mais, ó, nunca mais! O dono da casa, macaco velho, de pince nez no nariz, me trata como se eu fosse um empregado seu, às avessas, sem carteira assinada, pagando para trabalhar, cuidar do jardim, da pintura, do vazamento da pia, da luz queimada, da goteira, da segurança etc, sem direito às benesses trabalhistas getulistas: décimo terceiro, férias, licença paternidade, aviso prévio e o diabo a quatro: "pagando em dias, serás bom" - diz ele, cofiando os bigodes. Ora, ora, quando vou pagar o aluguel, liturgicamente "emdias", dia 10, nunca recebo um obrigado ou pelo menos um "bom trabalho, rapaz, minha casa está um brinco", nada. Ele conta o dinheiro umas trezentas vezes, enrola umas palavras, balbucia um resmungo, e me dá um recibo amarelado, tchau, tiau

Ah, seu moço do meu bodocó, já fiz milhões de planos para sair do aluguel, talqualmente o caracol, ter minha casa própria, ou taliqual a abelha, viver em condomínio. Nos meus sonhos, economizo o dinheiro do carioquinha, do café, do dindin, da luz, da água, e me resta tanto para as paredes e o teto, tio patinhas, que eu poderia pagar uma casa para você e Xanduzinha, minha flor, ou mesmo resolver o déficit habitacional do país. Mas no fim, com as contas na mesa, o lápis na orelha, calculadora enumerada, só dá mesmo pro aluguel e pro agrado do vigia. Nem sempre foi assim, seu moço do meu Bodocó, na casa de mamãe e papai, que os anos não trazem mais, nem sabia soletrar a-lu-guel, lá sabia o que era dever ou escrever. Meu pai subindo em corda bamba pra chegar ao fim do mês e eu aplaudindo o herói, o dono de circo, o homem mais sabido do mundo, o que tirava coelho da cartola e nos dava presentes. Minha mãe lhe passava os bastões, e era a moça do circo, a mais precisa, a atriz do sonho, feliz, com um eterno sorriso de aeromoça. Eu e meus irmãos, nós-palermas, éramos a platéia que os anos não trazem mais, cajueiro pequenino carregadinho de flor. O que eu sou é terem vendido a casa...

Fico imaginando quantas pessoas roçaram seus medos nas paredes desta minha casa de aluguel. Acho que, no quarto verde, morreu alguém, na sala, uma moça chorou, na cozinha, quebraram pratos. Casa de aluguel é uma colcha de retalhos, os adesivos esquecidos de algum adolescente heavy-metal, um objeto perdido, soluções domésticas que não atendem mais, paredes de toda cor, tom sobre tom, ora bolas, é isso aí brodim, arqueologia de vidas passadas, mediunidade, fastamas alugados. Mas a coisa vai mudar, o governo do presidente mais bonito do mundo vai ajudar o maior cronista do mundo, mediante ausência de juros na compra da casa própria afiançada, 30 anos, vixe. Minha casa, minha vida!

O fiasco, seu moço do meu Bodocó, é porque falta quarenta mil pessoas em Quixadá para completar os cem mil exigidos no projeto, onde eu vou arranjar tanta gente? Primos, sobrinhos, parentes? Pensei até em povoar a região com os meus 365 milhões de espermatozóides disponíveis, segundo o último espermograma, aleluia! Outro desarranjo em Quixadá é a especulação imobiliária, o pessoal perdeu a noção ou o que o quê? Qualquer dois cômodos é cinquenta mil reais, oitenta mil, 160 mil, em frente ao hospital, 360 mil, tem casa velha, 100 anos, de 1 milhão de real ao lado dos correios! Você endoidou ou cheirou gás? Mão de obra é outro absurdo, material, os olhos da cara. Venham, senhores, a Quixadá, o negócio aqui tá bom!

Por enquanto, Seu moço do meu Bodocó, o que está mais perto de uma casa são as casas dos meus botões. Mas enfim, comprei bilhetes do totolec e de outros tantos que prometem me dar uma casa se eu chegar aos números certos. Há ainda uma possibilidade, não chore minha leitora querida, que começei a pagar mês passado: a tumba do melhor cronista do mundo, com os dizeres de Murilo: "A vida separa mais que a morte"; uns sete palmos de chão que eu não deixo por nada neste mundo, debaixo de uma árvore, na sombra, pertinho dos pássaros que refazem seus ninhos nos galhos. Que as prestações me sejam leves...


Rodrigo Marques - Escritor e Professor
Fonte: Crisanto Jr.

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